8# ARTES E ESPETCULOS 14.5.14

     8#1 ESPECIAL - A VOZ DA GERAO CONECTADA
     8#2 ESPECIAL  O PRIMATA QUE CONTA HISTRIAS
     8#3 VEJA RECOMENDA
     8#4 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#5 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  NOTAS PR-COPA

8#1 ESPECIAL - A VOZ DA GERAO CONECTADA
Maior fenmeno da atual literatura para jovens, o americano John Green domina a difcil arte de se comunicar com quem vive on-line.
JERNIMO TEIXEIRA, DE INDANPOLIS 

     Faz pouco tempo que John Green est instalado em seu novo escritrio e estdio, em um bairro de restaurantes e baladas em Indianpolis, no Meio-Oeste dos Estados Unidos. H marcas da mudana recente: ferramentas e materiais de construo espalhados pelo estdio onde grava seus vdeos, e muitas caixas pelas outras salas. No cmodo em que ele concede entrevista a VEJA, latas de refrigerante vazias acumulam-se sobre a mesa de centro, restos de alguma reunio no dia anterior (ou de uma sesso de videogame: a mulher de Green, Sarah  que, alis, trabalha na nica sala bem-arrumada do escritrio , baniu o XBox 360 da casa da famlia). "Foi nesta poltrona que escrevi todos os meus livros", diz Green. Trata-se de um trambolho cujo estofamento marrom claro est sujo e um tanto pudo  e por isso tambm foi expulso pela sanha saneadora da mulher do escritor. Vai demorar at que a poltrona seja usada novamente no para games, mas para a literatura. Green no tem planos imediatos para um novo livro. "Talvez no ano que vem. Ou em 2016", diz. Neste momento, o autor est empenhado na divulgao do filme baseado em seu grande best-seller, A Culpa  das Estrelas, que estreia nos Estados Unidos e no Brasil em junho. E ainda mantm a produo de vdeos para o YouTube, seu canal mais imediato de comunicao com jovens fs. Sim, ele faz sucesso nas livrarias e na internet: Green desautoriza os recorrentes vaticnios tecnofbicos sobre o ocaso da leitura na era digital. 
     
     
     Vlogbrothers, o canal do YouTube que o escritor mantm junto com seu irmo, Hank Green (que acaba de lanar no iTunes um bem-humorado disco de rock, Incongruent),  seguido por mais de 2 milhes de pessoas. O escritor tem nmeros ainda mais polpudos: lanado em 2012, A Culpa  das Estrelas j vendeu 7 milhes de cpias nos Estados Unidos e 1,2 milho no Brasil. Aqui, seus quatro romances venderam, somados, perto de 2 milhes de exemplares  metade da venda dos sete volumes da srie Harry Potter (da qual, alis, Green  f). Como nenhum outro autor hoje, Green  o representante literrio da gerao que se comunica por celular e cultiva relaes pelas redes sociais. "Vejo jovens fazendo amigos on-line, e so amizades to profundas e verdadeiras quanto as que fazemos ao vivo. Isso me parece ao mesmo tempo legal e estranho", diz. 
     O escritor americano  um fenmeno do vigoroso segmento que, no mercado editorial de seu pas, foi batizado de young adult (jovem adulto). A Culpa  das Estrelas ocupa o primeiro lugar na lista dessa categoria do jornal The New York Times. Em VEJA, nesta semana, o livro est no primeiro lugar da lista de fico  e seus outros trs romances (veja o total de suas vendas na pg, 121) tambm esto l.  seguro supor que a grife John Green tenha alavancado ainda as vendas de dois outros livros de que ele participa, cada um deles com cerca de 60.000 exemplares comercializados no Brasil  Will & Will (Record), romance escrito em parceria com David Levithan, e a coletnea Deixe a Neve Cair (Rocco), na qual ele participa com um conto. Seus ttulos individuais so publicados no Brasil pela editora carioca Intrnseca, a no ser por Quem  Voc, Alasca?, seu livro de estreia, lanado pela paulista Martins Fontes (a Intrnseca renegociou os direitos tambm desse livro e deve relan-lo no segundo semestre). 
     A Intrnseca  a casa de outro fenmeno da literatura juvenil, a srie Crepsculo, de Stephenie Meyer. Embora dispute a mesma faixa etria que a criadora do vampiro gua a com acar, Green  um autor de outra estirpe. H uma sensibilidade genuinamente literria em seus livros. Seus heris no so objetos de desejo para adolescentes que suspiram por vampiros ou lobisomens, mas adolescentes comuns, que vivem a rotina comezinha do ensino mdio. Green tambm se afasta de outra vertente costumeira entre livros para jovens hoje: a fico cientfica distpica de sries como Divergente, de Vernica Roth, e Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. As realidades opressivas que pesam sobre os personagens de Green so aquelas prprias da idade: inadequao, aborrecimentos escolares, paixes frustradas  e alguns dramas mais pesados: suicdio, cncer. Esse registro realista encanta seus leitores: "John Green mostra que nem todos os finais so completamente felizes. Ele pe realidade no enredo", diz Mayara Barbosa, 18 anos, de Curitiba (veja mais depoimentos de leitores nos quadros destas pginas e das seguintes). 
     Os heris de Green tm certo perfil nerd. Pudge, de Quem  Voc, Alasca?,  um aluno apenas mediano, fraco em matemtica (tal como foi confessadamente o prprio Green), mas com uma obsesso por memorizar as ltimas palavras de figuras histricas (Thomas Edison: "L adiante  muito bonito"). Quentin, de Cidades de Papel,  um rapaz esperto mas sem traquejo social que se v envolvido em um enigma: a garota de seus sonhos desapareceu. Colin, de O Teorema Katherine,  um gnio da matemtica que foi dispensado por dezenove namoradas, todas elas chamadas Katherine. A nica menina do time  Hazel, de A Culpa  das Estrelas, adolescente que sofre de cncer mas se recusa a ter sua breve vida definida pela doena. 
     Com 36 anos e pai de duas crianas, Green conserva uma certa agitao pueril prpria de seu pblico leitor. Quando o fotgrafo Gilberto Tadday props que ele sasse para fazer um "anjo de neve" nas caladas geladas da vizinhana, ele topou na hora (o resultado  a foto que se v na pgina 120). VEJA acompanhou a gravao de um vdeo que Green fez para o site da revista de curiosidades Mental Floss, sobre a histria das tiras em quadrinhos publicadas em jornais. Diante da cmera, ele  um dnamo: brinca com os elementos do cenrio (uma parede cheia de brinquedos) e improvisa sobre o roteiro. "Demorei a encontrar meu estilo no vdeo", diz ele. "Quero ser autntico, mas preciso de um elemento de atuao. Se me apresentasse assim como sou, seria muito chato." O estilo usual de Green conjuga agilidade  a fala  rpida, a edio  frentica  e muita, muita informao. Na srie CrashCourse (Curso Rpido), o escritor condensa, em exguos dez minutos, temas amplos da histria como Revoluo Industrial, civilizao islmica e II Guerra Mundial. "No acredito que a educao online poder jamais substituir uma sala de aula", adverte Green. Os vdeos de histria serviriam, diz ele, como uma ferramenta auxiliar. O texto de CrashCourse, alis,  elaborado por um professor chamado Raoul Meyer, que deu aulas para Green em um internato no Estado do Alabama  matriz da escola de Quem  Voc, Alasca?. 
     Para os fs, Green no  apenas o escritor, nem somente o sujeito que tem um canal de vdeo engraado na internet: as duas facetas so complementares e indissociveis. Os admiradores mais empenhados do autor foram batizados por ele de nerdfighters, algo como "guerreiros nerd". Os nerdfighters brasileiros so bastante ativos. J se organizaram para levar ao escritor um exemplar de Alasca com vrias assinaturas de fs e uma camisa 10 da seleo, autografada por Pel. Green conta que fez fora, mas no conseguiu disfarar: entusiasmou-se mais com a camisa do que com o livro. E, se no Brasil s se comenta a excluso de Robinho do time de Felipo, Green estar decepcionado por outras razes: torcedor do Liverpool, ele queria ver, na Copa do Mundo, Lucas Leiva, que joga no time ingls. 
     O escritor j comentou, em vdeo, sua admirao com o sucesso que faz no Brasil. Em conversas on-line com leitores brasileiros, Green at teve uma provinha de certa radicalizao poltica recente. Durante as manifestaes de junho de 2013, ele tentou argumentar que, sim, era justo protestar por sade, educao, transporte - mas que os brasileiros no deveriam perder de vista o enorme avano que a estabilidade econmica permitiu ao pas nas ltimas dcadas. "No era o que eles queriam ouvir. A maior parte dos jovens nem lembra o que  inflao. Por que ouviriam um velho conservador fazendo o elogio da estabilidade?" Green est, claro, brincando: ele no , nem de longe, um conservador. Nos poucos comentrios que faz sobre matria abertamente poltica na internet, suas bandeiras  casamento gay, taxao para grandes fortunas  so prprias do Partido Democrata. 
     Como escritor, porm, Green se declara um conservador no pleno sentido da palavra: "Minhas escolhas de estilo so tradicionais. Encontro valor nas convenes de gnero". Em A Culpa  das Estrelas, ele s fez questo de romper com uma conveno dos romances sobre vtimas de cncer  o otimismo. Green no compra uma certa cultura da autoajuda que acredita ser profundamente americana: " essa ideia de que uma atitude positiva faz toda a diferena, e de que se pode derrotar at o cncer com otimismo. Isso  uma ofensa s vtimas da doena". J comprometido a futuramente trabalhar com a Fox na produo de Cidades de Papel, Green deu palpites na verso final do filme baseado em seu maior best-seller (vetou, por exemplo, uma estrela cadente brega que apareceria no cu noturno que Hazel admira na cena final). A Culpa  das Estrelas resultou bastante fiel ao veio sentimental do livro, e aconselha-se aos espectadores que levem lenos ao cinema. Mas est l tambm, pelo menos em parte, o humor meio mrbido com que Hazel e seu namorado, Augustus  que perdeu uma perna para o cncer sseo  enfrentam a doena. Filme e livro so melanclicos, mas conservam a leveza e a agilidade que John Green imprime a suas aparies no YouTube. "Pessimismo no  a resposta certa para a condio humana", diz o escritor. 

QUASE 2 MILHES
As vendas dos livros de John Green no Brasil
A Culpa  das Estrelas 1,25 ,ilho
O Teorema Katherine 270.000
Cidades de Papel 280.000
Quem  Voc, Alasca? 170.000
Total 1,97 milho

AMIGO DE TODAS AS HORAS
Ligado nos fs e no mundo, inteligente, bom escritor, cheio de respeito para com o adolescente: os leitores de John Green dizem por que gostam tanto de seus livros

Carolina Azevedo, 11
Rio de Janeiro
"John Green entende o que todo mundo pensa mas no consegue dizer. Escreve o que passa pela nossa cabea e coloca de um jeito bonito. Seus personagens so uma inspirao para fazermos as coisas. Eles so normais, pessoas que vivem sua vida, e ao mesmo tempo tm carter e so corajosos. Percebo que muitos livros dele no so feitos para minha idade, mas no me incomodo, porque ele descreve as situaes de um jeito que no  pesado, justamente para pessoas como eu ler.  meu escritor preferido. 

A Nathane Costa Negreiros, 23
Joo Pessoa, Paraba
"Leio John Green porque ele descreve como ningum o adolescente, o que no  l muito simples. H ainda humor em seu texto. E os personagens em geral so nerds, o que faz com que nos identifiquemos ainda mais. Em 2012 fui at a Bienal de So Paulo para conhecer outros fs de Green. Ficamos muito amigos. Costumo dizer que, ao acabar um romance de Green, h uma ressaca literria. Voc fecha o livro, mas fica vivendo ele por muito tempo." 

Felipe Viana Brasil, 18
Joo Pessoa, Paraba
"Ele  diferente dos outros escritores,  mais social e humano. Em Quem  Voc, Alasca?, consigo me ver em muitas situaes. O protagonista  apaixonado pela menina e ela no d bola. Foi o que aconteceu comigo. Aprendo com os personagens: antes eu esperava as coisas acontecerem. Hoje, vou l e fao." 

Vanessa Murandi
Aveiro, 18
Ribeiro Preto, So Paulo 
"Ele est sempre por dentro de tudo: posta fotos no Instagram, fala com fs, grava com o irmo, arrecada dinheiro para fundaes. Em 2012, designei cada pessoa de um grupo do Nerdfighters para gravar um captulo de A Culpa  das Estrelas e fizemos um audiobook para uma amiga tetraplgica."

Mayara Barbosa, 18
Curitiba, Paran
"John Green  envolvente, encantador e viciante da primeira  ltima pgina. Ler suas palavras  como estar dentro da histria e sentir todas as sensaes dos personagens. Ele tem o dom de transformar o que tinha tudo para ser um romance-clich em algo surpreendentemente diferente. Os romances comuns nos fazem acreditar no casal que ser feliz para sempre, enquanto ele mostra que nem todos os finais so completamente felizes. Isso traz realidade para os enredos.

Dayse Mara Dantas, 24
Goinia, Gois
"Leio Green porque sou formada em letras e aprecio quem sabe usar as palavras. Alguns fs e eu fizemos uma surpresa para ele. Pusemos um livro seu para percorrer o Brasil. Coletamos mais de 100 assinaturas, do Sul ao Norte. Uma das meninas entregou o livro, junto com uma camiseta da seleo assinada pelo Pel. Foi emocionante. Fizemos dois vdeos, um com a reao dele e o outro com seu depoimento."

Iris Maria F. da Costa, 21
So Gonalo, Rio de Janeiro
"As histrias dele no giram em torno do que acontece, mas sim do personagem. Ele comanda. Muitos acham que A Culpa  das Estrelas  sobre o cncer da Hazel. Errado. A doena  s mais uma coisa que faz parte dela, como os livros que ela l, os filmes que ela v ou a relao dela com Gus. Seus personagens tm um pouco de cada um de ns, com seus defeitos e qualidades."

Mateus Lima, 17 
Fortaleza, Cear
"Eu gostava da forma como Green e o irmo falavam um com o outro no blog, como se conversassem comigo. Tinha a sensao de que ele era meu amigo. Depois, um colega me mostrou Quem  Voc, Alasca?, Eu me apaixonei de cara. Ele lida com assuntos comuns sem cair no bvio. E sou grato a ele. H trs anos, ajudou-me numa tristeza. Lendo, eu no me sentia sozinho."

COM REPORTAGEM DE BRUNO MEIER


8#2 ESPECIAL  O PRIMATA QUE CONTA HISTRIAS
A cincia comprova que a arte da fico no  suprflua: est, ao contrrio, profundamente arraigada na natureza humana, e  necessria a ela.
JERNIMO TEIXEIRA E MARCELO MARTHE

     Em uma parede do escritrio de John Green em Indianpolis, aparece, emoldurada, a capa de An Imperial Affliction (Um Sofrimento Imperial), de Peter van Houten.  o livro inexistente de um autor fictcio: Hazel, a protagonista de A Culpa  das Estrelas, leitora culta sensvel que conhece de cor versos de T.S. Eliot,  fascinada pela obra do recluso Van Houten (no filme, interpretado com antipatia impecvel por Willem Dafoe). O romance de Van Houten ocupa um lugar especial na vida de Hazel, da mesma forma que, pode-se supor, os livros de John Green ocupam na vida de milhes de jovens leitores. Foi uma leitora entusiasmada de Green quem criou a capa para o livro falso, como que tentando dar um trao de palpabilidade ao mundo fictcio de, A Culpa  das Estrelas. Esta  uma singularidade espetacular da espcie humana: pelo exerccio de contar e ouvir histrias  nos mais variados meios: conversao, livros, internet, cinema , homens e mulheres se importam com pessoas que no lhes so prximas, que no esto mais vivas, ou que nem sequer existem. 
     A fico  um trao definidor da humanidade, e como tal se pode afirmar que ela tem razes biolgicas profundas. Cultivar o hbito da leitura (e, em especial, da boa leitura) surte efeitos ntidos: desenvolve a imaginao, o vocabulrio e o conhecimento, a capacidade de associar  de usar a inteligncia de forma mais plena, enfim. No  acaso, por exemplo, que todos os jovens de grande promessa nos estudos e na carreira mostrados nesta reportagem sejam leitores vorazes. Mas os mecanismos especficos da fico (assim como grande parte do funcionamento do crebro humano) esto muito longe de ser satisfatoriamente compreendidos pela cincia. "Ainda que a fico seja uma atividade exclusivamente humana, as razes pelas quais a apreciamos e seu impacto sobre o crebro so mistrios que a cincia mal comeou a desvendar", diz Krish Sathian, neurocientista da Universidade Emory, nos Estados Unidos. 
     O mistrio da fico est perfeitamente resumido na fala de um dos maiores personagens de fico da histria da literatura. Na pea de William Shakespeare que leva seu nome, Hamlet observa um ator que chora ao apresentar uma cena sobre Hcuba, a rainha de Tria, que v seu marido, o rei Pramo, ser morto por Pirro, guerreiro grego. Quando se v sozinho em cena, Hamlet comea um de seus marcantes monlogos com uma pergunta: "Quem  Hcuba para ele, ou quem  ele para Hcuba, para que ele chore por ela?". Em algumas universidades americanas, uma nova vertente da teoria literria vem recorrendo  psicologia evolutiva  que estuda o comportamento humano a partir da biologia darwinista  para responder a essa pergunta de Hamlet. "No  mistrio saber por que informaes verdadeiras importam para nossa sobrevivncia. Mas  bem mais desafiador, para a cincia, entender por que nos importamos com os dramas de mentirinha de personagens inventados", diz Jonathan Gottschall, da Universidade Washington e Jefferson, autor de The Storytelling Animal (em traduo aproximada, O Animal que Conta Histrias). Gottschall levanta duas respostas possveis, no totalmente incompatveis entre si. H quem argumente que a fico  uma espcie de efeito colateral das adaptaes pelas quais o crebro humano foi moldado ao longo de nossa histria evolutiva. O ser humano  uma espcie gregria e cooperativa  e, se nossa mente est configurada para ter empatia com a dor do prximo, talvez, por acidente, ela tambm se importe com a dor de figuras que no existem. Gottschall inclina-se para outra explicao: a fico no  uma "falha de programao", mas um instrumento que traz vantagens para nossa sobrevivncia. "H estudos que mostram que a fico melhora nossa capacidade para a empatia, nossas habilidades sociais e nossa inteligncia emocional", diz Gottschall. 
     As emoes morais que facilitam a cooperao entre seres humanos so centrais em Comeuppance (Retribuio), ambicioso estudo de William Flesch, da Universidade Brandeis, que tenta explicar por que nos interessamos pelo destino de Hcuba ou Hamlet. "Costumamos pensar na cooperao como oposta  competio, mas no  necessariamente assim. Seres humanos competem para ver quem  mais cooperativo", diz Flesch. Nessas disputas cooperativas,  essencial ter no apenas empatia pelo prximo, mas tambm raiva de quem deliberadamente prejudica outra pessoa. "No s isso: sentimos prazer nessa raiva, e por isso buscamos razes para ter raiva", diz Flesch. Estaria a a raiz do prazer que sentimos em acompanhar a ao de viles cheios de artifcios  seja o lago de Otelo, de Shakespeare, seja a Carminha ou o Flix da novela das 9. 
     Empatia  um conceito-chave para entender as razes de sermos animais que narram histrias. O crebro  ele mesmo emptico. "Quando voc l um romance, coloca-se no lugar do personagem", diz Vronique Boulenger, do Laboratrio de Dinmica da Linguagem, na Frana. "Regies do crebro do leitor que seriam ativadas se ele estivesse fazendo o mesmo que o personagem entram em ao." Se o personagem, por exemplo, est caminhando, reas cerebrais ligadas  motricidade so ativadas  mesmo que o leitor esteja estendido no sof. Achados similares foram feitos por Krish Sathian em seus estudos sobre a linguagem figurada. Uma metfora como "cantora com voz de veludo" ativa reas sensrias do crebro, como se estivssemos apalpando um pedao de veludo. O mesmo no se d quando lemos ou ouvimos "cantora de voz agradvel". 
     Keith Oatley, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Toronto, no Canad  e ele mesmo um autor de fico , sustenta que o mergulho nas histrias produz uma simulao mental to vvida nos leitores quanto as simulaes de realidade virtual no computador. Ao lado do colega Raymond Mar, da tambm canadense Universidade de York, Oatley publicou estudos que comprovam um lugar-comum da educao: ler faz bem. "A fico dota as pessoas de maior capacidade de empatia e compreenso dos outros", diz Oatley. Seu colega Mar  um tanto mais cauteloso. "Sou muito conservador na interpretao de resultados de pesquisa, e essa  uma rea que ainda est nos seus primrdios. Mas a evidncia de que a leitura ajuda a desenvolver habilidades sociais de crianas est, sim, se acumulando", diz. Mar conduziu testes com ressonncia magntica em 86 pessoas, ora estimuladas pela leitura de fico, ora por aes tpicas do convvio social, e concluiu que h uma superposio substancial das conexes neuronais que so acionadas para compreender histrias com aquelas voltadas  interao real entre as pessoas. 
     O pesquisador adverte, porm, que nem todo gnero literrio carrega o potencial de promover a empatia. Romances como os da inglesa Jane Austen (1775-1817), com sua observao sutil das nuances de carter e das complexas manobras de heronas desassistidas na rgida sociedade inglesa da poca, estariam entre os mais apropriados para treinar habilidades sociais. Katrina Fong, aluna de Mar, aprofundou-se no estudo do impacto de diferentes variedades literrias  e concluiu que um gnero menos centrado nos sentimentos humanos, como a fico cientfica, no influenciaria tanto nossa capacidade de empatia. Restam dvidas ainda sobre a eficcia da fico audiovisual. "Alguns estudos sugerem que crianas que assistem a muitas horas de televiso tm perdas na teoria da mente", diz Vronique Boulenger. "Teoria da mente"  o termo cientfico para a habilidade de assumir o ponto de vista do outro. 
     Nosso crebro, portanto, est configurado para que choremos por Hcuba, que perdeu o marido na guerra. Algumas histrias  e as razes para tanto  ainda esto por ser averiguadas pela cincia  so mais eficientes do que outras em produzir essa comoo, essa empatia que define o melhor de nossa humanidade comum. O talento do narrador certamente faz diferena: a histria de Romeu e Julieta foi contada por uma pliade de autores italianos hoje conhecidos apenas de especialistas em literatura renascentista, mas s a verso de William Shakespeare tem feito espectadores e leitores chorar h quatro sculos (em certo sentido, alis, o best-seller de John Green pertence  matriz do amor trgico dos amantes de Verona, ainda que o ttulo venha de outra pea de Shakespeare, Jlio Csar). 
     Os depoimentos que acompanham esta reportagem confirmam a importncia da leitura de fico para a realizao na vida e na carreira  mesmo para quem opta por profisses que nada tm a ver com artes e humanidades. O socilogo Max Weber, no incio do sculo XX, observava que a ascenso da burocracia como forma de organizao social estava mudando o ideal da educao europeia. Antes buscava-se formar homens de cultura, com amplitude de interesses e conhecimentos, mas a burocracia pedia outro tipo de pessoa: o especialista, estreitamente limitado a uma nica rea de conhecimento. A natureza humana, porm, resiste ao cabresto tecnocrtico: precisamos de arte, de fico, de boas histrias.  John Green, mestre em contar histrias para jovens, quem define: "Deveria ser impossvel sair da prpria cabea. Mas, lendo ou escrevendo, fazemos isso. E parece um milagre''. 

IMPULSO ANCESTRAL
Pinturas rupestres em uma caverna na Lbia (acima,  esq.) j mostram rudimentos da capacidade narrativa do ser humano; na gravura francesa do sculo XIX, o hbito social e familiar de ouvir histrias  neste caso, da Bblia, que o pai l para sua famlia; e um jovem l um livro digital no metr de Moscou ( esq.). Pouco importa o suporte tecnolgico: a necessidade de contar e ouvir (ou ler) histrias sempre acompanhar o ser humano. 

DE MACHADO AO BOLSHOI E AO MIT
Em todas as entrevistas que fez em faculdades americanas, a mineira Luana Lopes Lara, de 17 anos, teve de declarar um livro indispensvel. Escolheu Dom Casmurro, de Machado de Assis. "Li trs vezes. Na primeira no gostei, mas me encantei com o final em aberto." Ex-aluna de escola tcnica e ex-bailarina do Bolshoi de Joinville, Luana foi aprovada nas prestigiadssimas Harvard, Yale e Stanford, mas optou por engenharia eltrica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). "A faculdade quer saber se o aluno tem o hbito da leitura e, mais ainda, uma viso crtica"

LEITURA GIL E UMA VAGA NO ITA
H vrias similaridades entre a trajetria de Marcos Santana de Oliveira ( dir.) e a de Roger Leite Lucena. Ambos tm 19 anos, nasceram no Maranho e so, respectivamente, primeiro e segundo lugar no vestibular de 2014 do Instituto Tecnolgico de Aeronutica (ITA), uma das provas mais difceis do pas. So, tambm, leitores onvoros. Marcos  f dos livros de Sherlock Holmes e do clssico Viagem ao Centro da Terra, de Jlio Verne. Roger vai da Bblia a Machado de Assis, Bernardo Guimares e Lima Barreto. Nas frias, ele acordava s 8 horas e passava o dia lendo. "Isso ajudou a aumentar meu vocabulrio, estruturar frases, transmitir ideias e pensar rpido, sem cansar", diz 

O VALOR TTICO DE UM BOM REPERTRIO
As leituras preferidas do paulista Maurcio Lorenzetti de 19 anos, vo de 1984, de George Orwell, e Memrias Pstumas de Brs Cubas, de Machado de Assis, a O Guia do Mochileiro das Galxias, de Douglas Adams. Ele usou desse gosto como estratgia no vestibular. "Ler no s enriquece o vocabulrio e o conhecimento, como me faz interpretar bem um texto ou as questes de uma prova", diz. Foi uma das maiores notas de ingresso na Unicamp, onde cursa engenharia da computao

CULTO E DESENVOLTO
J na infncia o amazonense Gabriel Benarrs, de 25 anos, lia rico Verssimo, Clarice Lispector e Machado de Assis. Aos 17 anos, ele foi aceito em dezessete universidades americanas. Escolheu Stanford. Foi nas aulas que, em 2012, ele fundou a startup Ingresse.com. site que comercializa ingressos para eventos e mantm trinta funcionrios. Diz Benarrs que  da narrativa que vem sua desenvoltura nos negcios: "Entender como os grandes contadores de histria se comunicam me ensinou a passar uma mensagem de forma convincente" 

COM REPORTAGEM DE BRUNO MEIER


8#3 VEJA RECOMENDA
DVDs
O COLECIONADOR (THE COLLECTOR, INGLATERRA/ESTADOS UNIDOS, 1965. VERSTIL)
 Fechado e esquisito, Freddie (Terence Stamp)  um vido colecionador de borboletas que quer acrescentar um exemplar especial ao seu acervo: a jovem Miranda (Samantha Eggar), que h anos ele segue obsessivamente  embora ela ignore sua existncia. Sua estratgia para capturar esse espcime raro  um primor de planejamento; inclui investir o dinheiro ganho na loteria numa propriedade isolada, a qual traz como bnus uma capela medieval de grossas paredes de pedra, sem janelas. Freddie acha que, conhecendo-o, Miranda vai se apaixonar por ele. No lhe ocorre que, pelo prprio mtodo utilizado, isso  uma impossibilidade. William Wyler, um dos grandes do cinema americano, tirava tudo de letra: picos (Ben-Hur), faroestes (Da Terra Nascem os Homens), melodrama (Os Melhores Anos de Nossas Vidas), comdia romntica (Como Roubar Um Milho de Dlares). Pois fez o mesmo com este suspense psicolgico baseado no livro de John Fowles. Oportunidades para escorregar no faltam aqui. Mas Wyler se desvia delas com elegncia, controle e premeditao  alm de uma salutar queda para o humor negro. 

RUSH  NO LIMITE DA EMOO (RUSH. INGLATERRA/ALEMANHA, 2013. CALIFRNIA) 
 A plateia achou que se tratava de um filme de corrida de carro  coisa para aficionados  e no foi v-lo no cinema. Tremenda injustia. Rush,  verdade, se concentra na eletrizante temporada de 1976 da Frmula 1, mas seu verdadeiro assunto  a natureza da competitividade entre o intempestivo, mulherengo e irresistvel piloto ingls James Hunt (Chris Hemsworth) e o cerebral perfeccionista e socialmente desajeitado austraco Niki Lauda (Daniel Brhl). Rivais que se odiaram  primeira vista, quando ainda estavam na Frmula 3, eles fariam de sua inimizade o combustvel de performances tremendas  em particular no torneio em questo, no qual Lauda sofreu o acidente que o deixou com queimaduras gravssimas, Hunt passou  sua frente e ento Lauda, com coragem titnica, voltou  pista ainda em carne viva. Este  sem dvida o melhor trabalho da carreira do diretor Ron Howard, de Apollo 13: apoiando-se no roteiro de Peter Morgan (A Rainha) e no excelente desempenho de seus dois protagonistas, ele filma com verve essa relao de opostos e fotografa de forma luxuriante corridas que tinham ainda ronco, emoo e muito perigo. 

LIVROS 
HUMOR PAULISTANO: A EXPERINCIA DA CIRCO EDITORIAL (1984-1995) (SESI-SP EDITORA; 432 PGINAS; 120 REAIS) 
 Criada por Toninho Mendes em abril de 1984, a Circo Editorial foi um dos redutos da criatividade em quadrinhos em um Brasil que estava se libertando do perodo da ditadura. Ela abrigou  e solidificou  nomes como Angeli, Laerte, Glauco e Luiz G, que publicaram suas tirinhas e histrias nas revistas Chiclete com Banana, Piratas do Tiet e Circo. Por meio de personagens como o punk Bob Cuspe, a baladeira R Bordosa e Los Trs Amigos (uma camarilha de bandoleiros), esses artistas do trao faziam uma afiada stira sobre a poltica e os costumes. Angeli, por exemplo, tem momentos de brilho com as histrias de 68 e Nanico, um par de comunistas patticos, e Ribamar  As Mil e Uma Utilidades de um Presidente, srie na qual sugeria outras profisses para o ento chefe de Estado brasileiro. Entre outras histrias carregadas de certo surrealismo, Luiz G colabora com Entradas e Bandeiras, em que famosas esculturas paulistanas ganham vida. O livro  acompanhado por textos que contam a histria da Circo e de seus principais colaboradores.  

MARY POPPINS, DE P.L. TRAVERS (TRADUO DE JOCA REINERS TERRON; COSACNAIFY; 192 PGINAS; 39,90 REAIS) 
 Em um lar da Inglaterra eduardiana marcado pelos pais ausentes, uma nova bab sacode a rotina desde sua chegada: a atarracada Mary Poppins  lanada pelo vento na porta da casa da famlia Banks, carregando sua sombrinha e uma bolsa mgica. Assim se apresentava ao mundo, nas primeiras pginas deste clssico publicado em 1934, a personagem que faria a fama da australiana P.L. Travers (1899-1996). Seguindo a trilha desbravada no sculo XIX por Alice no Pas das Maravilhas, do ingls Lewis Carroll, Mary Poppins honra a tradio de livros capazes de deliciar as crianas sem abdicar da complexidade literria. Em 1964, deu origem ao sucesso do cinema com Julie Andrews no papel da bab que arrasta os pequenos Banks para mundos de fantasia. Mas o original  bem menos edulcorado que a adaptao do cinema  cuja realizao, motivo de embate entre a autora e o produtor Walt Disney,  narrada de forma igualmente amena no recm-lanado filme Walt nos Bastidores de Mary Poppins. Mary  deliciosamente arrogante e irascvel. Nesta edio nacional, suas aventuras ganham ilustraes do estilista mineiro Ronaldo Fraga  

DISCO 
THATS IT, PRESERVATION HALL JAZZ BAND (SONY) 
 Como o prprio nome diz, a misso da banda  preservar o jazz produzido em Nova Orleans no incio do sculo passado  muitas dcadas antes de ele ser entortado pela turma do bebop e eletrificado pelo fusion. A Preservation Hall mantm inclusive instrumentos que no costumam mais fazer parte dos combos atuais de jazz, como o clarinete (tocado pelo excelente Charlie Gabriel) e a tuba, que na maioria das vezes cumpre a funo do contrabaixo (feudo de Ben Jaffe, tambm diretor musical do conjunto jazzstico). O respeito s tradies, no entanto, no impede que o grupo se arrisque em material prprio com o mesmo brilho. Thas it  o primeiro lanamento da Preservation Hall Jazz Band com repertrio totalmente autoral. Com produo de Jaffe e de Jim James, lder da banda de rock My Morning Jacket, os jazzistas vo de tpicos chamados de guerra das paradas de Nova Orleans (a faixa-ttulo) a canes gospel acompanhadas por um indefectvel pandeirinho  caso de Dear Lord: Give Me Strength. 


8#4 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- Divergente. Veronica Roth. ROCCO
3- Insurgente. Veronica Roth. ROCCO
4- Convergente. Veronica Roth. ROCCO
5- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES 
6- Adultrio. Paulo Coelho. SEXTANTE
7- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA
8- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
9- O Teorema Katherine. John Green INTRNSECA 
10- A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL 

NO FICO
1- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Locato. BEST SELLER
2- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO
3- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. TOPBOOKS 
4- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
5- O Tempo  um Rio que Corre. Lya Luft. RECORD 
6- Guia Politicamente Incorreto do Futebol. Jones Rossi e Leonardo Mendes Junior. LEYA BRASIL
7- A Estrela que Nunca Vai Se Apagar. Esther Earl. INTRNSECA
8- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS
9- 1822. Laurentino Gomes. Nova fronteira 
10- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. BENVIR
3- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
4- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
5- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA
6- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA 
7- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
8- O que Falta para Voc Ser Feliz? Dominique Magalhes. GENTE 
9- Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR
10- A Magia. Rhonda Byrne. SEXTANTE


8#5 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  NOTAS PR-COPA
1- Copa do Mundo seria melhor com um pouco menos de patriotadas. No Mxico havia (ainda h?), pouco antes da competio, a cerimnia de ''embandeiramento" do time nacional. Nesse momento o time passava a representar a nao. No Brasil, sem a mesma pompa de Estado, mas presente ao fundo uma enorme bandeira nacional, o anncio dos jogadores convocados procurou igual efeito. O tcnico Luiz Felipe Scolari, antes de desfiar a lista, pediu que todos  "comisso tcnica, direo da CBF, imprensa, torcedores"  nos unamos em torno do mesmo '"norte", ainda que discordando desta ou daquela convocao. Mais tarde, ao vivo no Jornal Nacional, disse que era hora de todos os brasileiros vestirem a "camisa amarela". A sua maneira, embandeirou a seleo.  

2- Copa do Mundo tambm seria melhor sem intoxicao publicitria. Mais do que ningum os publicitrios deveriam saber que tudo o que  excessivo cansa. E, no entanto, d-lhe Felipo vendendo carro, televisores, assinatura de telefone celular. D-lhe Neymar vendendo tudo. Antes de comear a Copa j enjoou. Sorte que depois do apito inicial do jogo inicial o enjoo passa. Cura-o a atrao irresistvel da bola correndo. 

3- Felipo preocupou-se  toa com eventuais discordncias agudas na convocao. No houve dissenso nem poderia haver. Tirando Neymar, os outros 22 poderiam ser substitudos por outros 22 sem diferenas acentuadas. Isso no  sinal de pujana do futebol brasileiro:  sinal de nivelao por baixo dos estoques de craques. 

4- Outra razo para a falta de dissenso  a carncia de identificao dos torcedores com os jogadores. Muitos dos convocados saram to cedo do pas que nem disputaram campeonatos de primeira diviso no Brasil. De repente  aparece um sujeito chamado Luiz Gustavo, ou um sujeito chamado Hulk, de quem nunca se ouvira falar e que, sem ter vestido a camisa de nenhum grande clube brasileiro, agora  titular da seleo. Ou  reserva, como o sujeito chamado Dante. Alm das torcidas clubsticas, havia tambm as rivalidades regionais. Paulistas e cariocas disputavam quem forneceria mais quadros para a seleo. Hoje, a disputa possvel seria se sero convocados mais ingleses ou mais espanhis, quer dizer: mais entre os que jogam na Inglaterra ou mais entre os que jogam na Espanha. 

5- Felipo  esperto. Ao embandeirar a seleo, busca duplo efeito. Primeiro, formar a famosa "corrente pra frente". Segundo, dividir responsabilidades. Mostrando-se desunidos, os brasileiros sero tambm culpados, se sobrevier a cruel desdita da derrota. Ele tem plena noo da carga que lhe pesa nos ombros. O pior cenrio  a desclassificao prematura. J nas oitavas de final,  mais do que possvel que o Brasil venha a enfrentar ou a Holanda, que o desclassificou em 2010, ou a Espanha, a campe naquela ocasio. Derrotado o time de Felipo, o torneio passaria a ser uma festa de argentinos, espanhis, italianos, ingleses e outros, com o Brasil pagando a conta. As massas podero se excitar.  

6- Pior que o vexame no campo de jogo ser o eventual vexame do despreparo para o evento. Prometeram-se investimentos que no vieram. A famosa "mobilidade urbana" ser a de sempre, com forte tendncia imobilizante, atenuada quem sabe apenas por puxadinhos nos aeroportos e decretao de feriados em dias de jogo. Alguns dos estdios s ficaro prontos na ltima hora, e tomara que se mostrem seguros. Tomara que no falte energia no pico das comunicaes que cruzaro o planeta. Se isso tudo ocorrer razoavelmente a contento (completamente a contento no  mais possvel) e se no houver torcedor com volpia de jogar vaso sanitrio no adversrio, ser um alvio. 

7- A Copa continua um risco para o governo, mas na semana passada funcionou a favor. O craque Renan Calheiros, agora com cabeleira que ameaa a de David Luiz, soube jogar de olho na tabela  tanto enrolou que fez a CPI da Petrobras enroscar com a Copa. O assunto Petrobras morreu. Agora  Copa. O embandeiramento da seleo marcou o incio de seu reinado. 


